Eu bicho

Eu noutra ocasião tive um sonho um pouco fora do comum. Sonhei que era bicho e comia mato, o sonho foi assim:

Os deuses me levaram para outro mundo. Então fui posto no meio dos bichos mais evoluídos daquele mundo, pacíficos como bois e grandes como hipopótamos, porém, corria risco de extinção pois não conseguiam sozinhos evoluir para a forma seguinte, adequada a seu estado de consciência.

Quando eu era bebê bicho, adorava mamar em minha mãe e correr saltitando. Toda a manada ficava feliz e comentava das forças de minhas pernas, da destreza de meu corpo e a força que desenvolvia em meus músculos. Eu era feliz naquela condição.

Quando eu era adolescente, adorava correr velozmente entre meu colegas bichos, mas não gostava de bater e disputar força entre eles. Certa vez, reclamei com minha mãe e depois reclamei com o chefe da manada… – não gosto disto e quero que eles parem.

O lider da manada disse que era tradição e que todos tinha que fazer aquilo, então deixei o bando de adolescentes. Certo dia o chefe da manada me procurou e disse: – você precisa correr, saltar e bater contra seus amigos. Eu disse que não ia fazer aquilo não era minha natureza. O chefe explicou que se não fizesse acumularia enzimas nas minhas juntas e em pouco tempo eu não poderia correr, nem saltar… Algo já estava acontecendo comigo, um sentimento tomava meu ser.

Quando atingi a maturidade minha consciência foi tomada por um click de despertar, pensamentos começara a povoar minha mente – o que estou fazendo aqui? porque estou comendo isto? eu sou um bicho?

Os meus colegas e as fêmeas jovens passaram a zombar de mim. Veja lá vai o gordo, veja lá vai o lerdo, olhe o preguiçoso. Eu não me identificava mais com eles e não me misturava a manada. Eu nem me incomodava com eles.

Eles me achavam louco. Como alguém pode não gostar de uma erva tão saborosa e macia? Eu me recusava a viver como bicho e exercitava a não comer erva como todo mundo, mas quando a noite caía, a consciência deixava o corpo e ao raiar do Sol quando a consciência tornava, minha barriga estava cheia de erva e água, para meu desespero.

As reflexões tomaram meu ser e então um dia encontrei a resposta – eu não sou bicho. Desde então uma dor passou a fazer parte de mim. Era uma dor sem origem, não localizada… doía, doía e doía muito… estava insuportável.

Então descobri uma fórmula para passar a dor, todas as noites subia num monte e mugia para o céu com um uivo até perder a consciêcia. Com meu corpo eu uivava e com minha consciência pedia uma saída ao Criador.

Aqueles escandalos noturnos fizeram o chefe da manada me procurar e me indagar. Por que faz isto? Isto não é da nossa cultura, não é nossa tradição, você tem que parar. Eu lhe respondi, não posso parar… isto me alivia e também não sou de sua cultura e tradição, não sou um de vocês.

Então o chefe da manada procurou uma fêmea para aliviar meu flagelo. Quando ela me procurou eu fugir assustado, pensei que estava sendo atacado.

- Sai para lá bicho feio, sai pra lá. Fique longe de mim.

A fêmea dizia: – não sou bicho feio, sou igual a você, olhe no riacho.

Ela insistia, e insistia todos os dias, e eu fugia dela causando-lhe dor sentimental. Ela procurava todos os meios para me agradar e me atrair sem sucesso.

Um dia apareceram os deuses e o chefe da manada em espirito para mim, e falaram comigo: – Você não é deste mundo. Você foi enviado aqui numa missão. Você será o salvador desta raça. Você é seu messias e você será seu deus adorado.

- Não obrigado, quero voltar agora para meu mundo.

- Você não pode, tem que ficar e cumprir sua missão.

- Não vou fazer nada, venha vocês e salvem eles.

Os deuses partiram irados.

Então, apareceu a Virgem Celestial na minha visão onde vi seu diálogo com os deuses:

- Já chega, ele não pode ficar mais aqui, ele tem que voltar, disse-lhes a Mãe Celestial.

Os deuses responderam: – ele aguenta um pouco mais, deixe-o sofrer um pouco mais, será bom para esta raça.

A mãe respondeu: – ele chamou por mim, eu vi seu sacrifício. Dê-lhe a felicidade ou partirá imediatamente.

Então os deuses voltaram e me ofereceram a felicidade, eu lhes respondi – não estou interessado, quero ficar com os meus semelhantes.

Então os deuses chamaram o espirito chefe da manada e propuseram um acordo. Dê-nos uma prole para que possamos subistituir você e deixaremos partir para seu mundo. Então eu concordei e lhes disse, envie tua fêmea novamente.

Quando ela engravidou eu chamei os deuses e lhes disse: agora me mata, cumpri minha parte no acordo. Então o chefe da manada reivindicou, ele não pode partir, misturou-se com uma das nossas, agora é um de nós eu o reclamo.

Eu exigi dos deuses o cumprimento do acordo, e todos partiram imediatamente sem dar uma resposta.

Quando nasceu a cria, a fêmea me apareceu e disse: – olha seu filho, veja que criatura linda. Eu lhe respondi: – sai pra lá bicho feio, leve este filhote para longe de mim. Ele não me pertence, pertence a sua manada… vai embora e não volte mais.

Os deuses vendo aquilo se irritaram comigo: – Existe uma lei neste mundo, você precisa respeitá-la, ele é seu filho e é seu dever protejê-lo. Eu lhes disse: – existe um acordo entre nós, vocês precisam honrá-lo.

Eu vivia longe da manada, mas não conseguia deixar a região… uma força magnética me prendia ao rebanho.

Um dia o rebanho estourou e veio na minha direção, foi quando eu vi as criaturas mais bestiais e mais lindas daquela vida atormentada. Pareciam bolas de fogo encarnadas em bicho. Orelhas pontudas, dente enormes e afiados… a visão me deixou maravilhado diante de tanto poder, tanta velocidade, tanta energia…

Então ouvi a consciência daquele grupo de bestas poderosas se dirigindo ao chefe da manada: quem é nosso? O chefe da manada direcionou para mim e lhes respondeu: – aquele é a sua presa, eu lhes dou… Um da manada veio na minha direção e acertou-me empurrando, antes mesmo de eu iniciar a corrida, então caí, quando três bestas com presas afiadas cravaram na minha carne em diversas partes do corpo. Senti seu espiritos entrando dentro do meu, o fogo abrasivo de suas consciências tomando minha completamente. Então pude sentir tremenda dor enquanto era despedaçado. Eu lhes disse: – anda me mata logo. A besta falou ainda não, a sua vida mantém o sabor da carne vamos nos saciar primeiro. Aguardei pacientemente, enquanto assistia os pedaços do meu corpo serem devorados. Então lhes disse: mate-me agora. A besta me respondeu – não podemos, você implicou sofrimento na manada, os deuses querem seu sofrimento, não permitirão que o matemos.

Então fui deixado despedaçado na relva… e as bestas partiram. Eu não sentia dor, não me movia, apenas aguardava pacientemente a morte chegar. Três dias se passaram e veio a manada até mim; todos choravam e lamentavam minha condição. Eu lhes disse: – partam daqui criaturas… não sou um de vocês. Ainda lhes confortei: – Não tenho dor alguma. Não tenho sofrimento. Quero estar só quando a morte chegar.

Após dois dias minha consciência apagou.

Os deuses me chamaram e disseram, seu filho não tem sua força, precisas voltar. Eu lhes respondi, – vá vocês eu não vou mais lá. Então o espirito chefe da manada veio até mim e me disse, você precisa nos salvar estamos em extinção. Eu lhes respondi, – muitas criaturas foram extintas, extingam vocês também. Ele me respondeu, mas suas extinções foram vontade de Deus. Eu lhes respondi, se estão extinguindo é porque é vontade de Deus…

Os deuses vieram e reclamaram, – você chamou as bestas, elas estão matando todos da manada. Daremos a você força equivalente e salvará a todos. Eu lhes respondi: – deixem que os matem o quanto quiserem, eles nasceram para isto. Eu não sou um deles, não vou interferir.

Eles no intuito de convencer, mostraram-me: – muitos foram trazidos do seu mundo, eles não são animais,são seres humanos nestes corpos. Estão presos nesta forma inferior e precisam passar para fase seguinte. Muitos fracassaram na tentativa de guiá-los… nós o adimiramos e convocamos você.

Eu lhes disse – Deus, o Pai, através da Divina Providência foi muito generoso comigo… tenho algumas habilidades… ofereço-me a ficar convosco aqui e deste céu juntamente com vós, torna-me-ei um deus neste mundo e guiarei seu povo.

Eles me disseram: – já somos deuses suficientes, não dividiremos nossa manjestade contigo.

Então virei para o chefe daquela raça e lhe disse: – Agora vocês podem evoluir, dou-lhe a chave, permitam que as bestas os devorem completamente até que não salve nem um entre vós.

O chefe falou: – conquistamos esta forma com muito sacríficio não permiteremos que ela se desapareça desta maneira. Ela nos foi confiada, guardá-lá-emos bem.

Eu lhe disse volte para seu pasto e aceitem sua condição, não podes evoluir se conservardes tal forma. Porém, se aceitarem a extinção de sua raça, o Universo os porá dentro de uma onda de vida superior… este conhecimento foi me dado pela mãe celestial.

…………………………………………………..

Então a Divina Sophia, virgem mãe de todos, concedeu-me honrarias…

E vieram os representantes da humanidade…

by jario.araujo

November 11th, 2009 Hora 3:47 pm

ID: 1703 ▼ Categoria: Crônicas, Decifrando os Sonhos • Este artigo possui: 1508 palavras.

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