O impasse com Jonh Lennon

A UnB resolveu reformar o teatro de arena, na parte mais alta, a velha estátua de bronze de Jonh Lennon saudava qualquer um que se sentasse ali. Saborear um lanche, conversar ou ouvir protesto de estudante, lá estava a imponente estátua do cantor.

Ela foi posta naquele local desde a fundação da universidade, e quem entre os estudantes que nunca brincou com aquela estátua verde suja cal, cocô de pombo e algumas pichações? E se ela falasse, poderia contar muita coisa sobre minha história na universidade também.

O decano me procurou – eu, na época, era o presidente dos estudantes na associação dos moradores, uma espécie de síndico sem pro-labore – e ofereceu a estátua para um local próximo a casa do estudante, sugerindo que ela fosse colocada na entrada, num espaço vago, onde seria feito um  jardim e uma pracinha para receber o ilustre.

Nem pestanejei, concordei plenamente…

Mal cheguei no pilotis do prédio, e fui recebido por um grupo de “estudantes-cabeças” em coro com algumas palavras de ordem: - Seu alienando, presidente bobão, burro… e outras qualificações.

- Calma colegas, o que está acontecendo?! Perguntei dirigindo aos principais.

- Você vai trazer aquele inglezinho idiota para nossa casa, saiba que não permitiremos! Responderam uns e outros responderam outras coisas.

- Calma pessoal vamos conversar! Tentei amenizar o ódio da “massa pensante”.

- Você é um tapado. Olha só, este imperialista.. blá.. blá.. blá, etc… Achei melhor ouvir e deixar cada um falar no divã do diabo.

Após, extravasarem a fúria, em vão, forcei na exposição: – Gente! A arte não tem bandeira, sua pátria é a cabeça das pessoas de bom gosto.  Até porque deviamos nos sentir honrados… A estátua é legal, todo mundo gosta dela. Ela está ali desde a fundação da universidade, vai sair de lá e precisa de um lugar para ficar e todos pensamos que aqui seja o melhor lugar para ela… no calor de nossos sonhos.

Nada disso! Não queremos esta estátua aqui e pronto. Não vamos permitir que um idiota imperialista, etc…

Insisti um pouco mais: – Olha! Se ela vir para cá, o local vai ficar ficar mais bonito, combinamos de construir uma praça, um jardim… fui expondo toda proposta da reitoria… e apesar de tantas vantagens estéticas para aquele cortiço miserável, aquele pedacinho de inferno… foi tudo em vão.

Desse dia em diante passei a desconfiar da capacidade de estudantes revolucionários…

Se pessoas que lutam por um mundo melhor e o bem da humanidade são tratados de forma tão desrespeitosa, exatamente por quem deveria zelar por manter viva suas lutas… e mais pessoas cujo único pecado foram ser estrangueiros nascidos em países opressores imperialistas… então, estou fora…

Sou um cidadão universal, … ante-ontem fui francês, ontém fui anglo-americano, hoje sou brasileiro, amanhã Deus decide o que serei…

by jario.araujo

August 27th, 2009 Hora 7:29 pm

ID: 995 ▼ Categoria: Crônicas • Este artigo possui: 449 palavras.

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